De chita, chitão, chitinha, muito já se disse e falou. Com o livro “Que chita bacana” e a utilização do tecido em estilismo contemporâneo urbano e fantasia, vai-se longe esticando-se ao limite a beleza anciã e rural do algodão estampado.

Artesãos, desenhadores, desenhistas e pintores desdobraram o uso da chita, que desde sempre também em cortinas e bonecas, para bolsas, colagens, cenários e sombrinhas que a partir do trabalho d’A CASA, enchem de flores nossos olhares. Mas, a enchente começa na fonte e a fonte é longínqua no tempo e no espaço e, à medida que a palavra chita é cada vez mais impressa, seu uso tradicional parece restringir-se e por mais que a lembremos, não devemos nos esquecer de que a lembrança sistemática esconde o medo do esquecimento. Não do suporte de algodão barato, mas da imagerie que ele suporta e guarda.

A guarda está na citação de Constanza Pascolato, no capítulo 6 do livro: “A chita, para mim, permanece na estamparia. E vai chegar o dia em que esta estamparia vai ter sofisticação e valor agregado, sem perder sua característica”. Pois foi pensando na permanência dos desenhos, na sofisticação de designs vindouros, nas novas características que pensamos serem agregadas às tradicionais que estamos propondo o refazimento criativo dos padrões, fazendo-os passar pela lente do design gráfico.

O design gráfico é por método e costume, um deslocador de imagens: atua importando figuras de um contexto onde sua existência é previsível para situá-las em contextos estranhos, gerando significados novos e surpreendentes. É também desmaterializador, e esse conceito nos interessa: com quase desfaçatez despreza a tapeçaria, a terra, a grama, canvas ou porcelana onde historicamente certa imagem, figura, padrão ou estampa nasceu e reside, para registrá-la no porto seguro do papel que, virado impresso e na prateleira guardado, transforma a figura em bibliografia, em cartaz e sei lá que outras peças gráficas poderemos imaginar. Além do papel.

A operação que propomos coordenar objetiva retirar os significados visuais da estampa em questão de seu suporte chita, enquanto tecido, dando um passo em direção ao estabelecimento de outra chita que guardando a original, já não é mais fazenda mas talvez estilo ou até atitude, desmaterializada e rematerializada no mundo gráfico do design refeito.

Carlos Perrone

PARTICIPANTES
1. Amanda Oliveira – designer gráfica, trabalha sobre o suporte papel. Desenvolveu em 2003, na FAAP, pesquisa e projeto de design de produto, tendo como material a cerâmica. Participou da exposição “Tempo em cartaz”, no Sesc Pompéia.

2. Antonio Saggese – fotógrafo, professor do Centro de Comunicação e Artes do SENAC, é formado em arquitetura e paralelamente ao trabalho de estúdio, desenvolve ensaios e trabalhos de artes plásticas com base fotográfica. Foi bolsista da Fundação Vitae.

3. Auresnede Stephan – professor Eddy, designer de intensa atividade acadêmica, trabalha em design e pelo design em atividades de alcance nacional. Professor da FAAP, é autor de um dos cartazes do Prêmio Design Museu da Casa Brasileira, sendo participante do júri em 2004.

4. Carlos Matuck – com Alex Vallauri e Waldemar Zaidler foi um dos pioneiros do grafiti em São Paulo, trabalhando com stencil art. Ilustrador, quadrinista e desenhista, produz murais e objetos gráficos recortados em madeira.

5. Ettore Bottini – especialista em designer editorial, é um dos responsáveis pela identidade visual que a Companhia da Letras construiu.

6. Celso Longo – designer, trabalha no desenvolvimento de projetos de identidade visual. Participou do evento “Tempo em cartaz”, do Sesc expondo e publicando cartaz sobre o tema terceira idade.

7. Chico Homem de Melo – designer, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, dirige seu próprio escritório de design gráfico.

8. Claudio Ferlauto – designer gráfico, desenvolve atividade editorial na Revista Abigraf e Editora Rosari. Tem trabalhos publicados na Communication and Arts e Prints (EUA), Novum (Alemanha) e Idea (Japão).

9. Iris Di Ciommo – arquiteta, designer gráfica, e de estamparia. Professora da FAAP.

10. Guinter Parschalk – especialista em luminotécnica, expôs sua coleção de luminárias no Museu da Casa Brasileira.

11. Guto Lacaz – arquiteto, designer, artista plástico e performer. 

12. Marcelo Aflalo – arquiteto e designer, especialista em design ambiental e gráfico. Professor da Arquitetura, FAAP.

13. Plínio Toledo Piza – arquiteto, paisagista, artista plástico, professor de desenho. Concluiu estudo sobre paisagens de Paraibuna, Vale do Paraíba.

14. Ruth Klotzel – designer gráfica, professora, integra a diretoria do Icograda. 

15. Waldemar Zaidler – tem murais pintados no Indianapolis Museum of Art (EUA) e em São Paulo, na estação Sé do Metrô. Desde os anos oitenta trabalha com projeto gráfico em seu estúdio. Nos anos 1970, foi um dos inventores do grafiti do eixo Rio-São Paulo.