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A CASA E O MUNDO

ENTREVISTA

FABIO SOUZA

Publicado por A CASA em 10 de Março de 2009
Por Daniel Douek

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"O design sustentável não trabalha apenas a forma, trabalha principalmente questões culturais e de comportamento"

 

Fábio Souza é idealizador do instituto de design para desenvolvimento sustentável.

 



O que é design sustentável?

Design sustentável, tecnicamente falando, é um conjunto de ferramentas, conceitos e estratégias que vão gerar benefícios ou melhorias nos âmbitos dos três pilares da sustentabilidade: econômico, social e ambiental. Quando se fala em design sustentável, pensa-se em um âmbito muito mais amplo para gerar essas soluções. Se você estiver atuando com design sustentável tanto em produtos, quanto em serviços, em design gráfico, em embalagens, em transporte ou nas mais diversas áreas que tendem a ter maior impacto – positivo ou negativo – nesses três pilares, irá pensar cada área de uma forma muito mais ampla. Ou seja, não pensará em desenvolver um produto de menor impacto ambiental trabalhando apenas os processos de fabricação e procurando utilizar materiais reciclados ou provenientes de fonte renovável. Não trabalhará apenas a forma, trabalhará, principalmente, questões culturais e comportamentais para saber como otimizar o benefício daquele produto. Trata-se de mudar a questão cultural e utilitária daquele produto ou serviço.

Trata-se especificamente de uma mudança comportamental do consumidor em relação ao produto, ou entra também a questão da forma como se produz, a forma como se trabalha, isto é, o lado dos produtores?

Perfeito. Por que se fala em sustentabilidade? Porque o modelo de desenvolvimento econômico que está aí é falho em um aspecto principal: na questão da longevidade. Em que é baseado o modelo de desenvolvimento econômico? Num sistema de produção e consumo. Então, se o design sustentável quiser desenvolver ou modificar os atuais modelos de desenvolvimento econômico, transformando-os em modelos mais sustentáveis, terá que atuar propondo mudanças e intervenções tanto no consumo, quanto na produção. Quando se tem um serviço a ser desenvolvido, durante a fase projetual, isto é, a fase de pensamento daquele serviço, a empresa que vai desenvolvê-lo será efetivamente afetada. Ela pode, inclusive – e a idéia é exatamente essa –, ter ganhos já a partir daí, a partir dessa mudança que eventualmente vai ser requerida. A formatação do projeto, do serviço ou do produto é que vai explicar para a empresa onde é que ela vai ter que mudar, por que ela vai ter que mudar e quais são os benefícios que ela vai ter com isso. Veja bem, não é “vamos mudar porque temos que mudar”, é: “vamos mudar porque é melhor mudar, porque é mais sensato mudar”.

 

É mais caro trabalhar dessa forma ou pode dar lucro?

Dá lucro. Lembrando: o design sustentável vai trabalhar melhorias nos três pilares: econômico, social e ambiental. Pode-se desenvolver um produto muito bom, ambientalmente falando, ou seja, que gere um impacto ambiental muito pequeno, que otimize enormemente os recursos energéticos e que seja feito de forma socialmente responsável. Bom, mas e aí? E o econômico? É muito caro para se fazer esse produto? Ele não tem venda? Não tem apelo de mercado? A partir daí, ele já deixa de ser sustentável e já deixa de ser uma solução proveniente do design sustentável.

Quando uma solução é efetivamente criada pelo design sustentável, tem que trazer benefícios tanto nos setores social e ambiental, como no econômico. Ela deve trazer lucro, mas, ao mesmo tempo, deve trazer maior consciência, maior responsabilidade social, melhorias no comportamento, uma mudança comportamental. Deve trazer um maior sentido de colaboração, de respeito, de consciência, de cidadania e, ao mesmo tempo, essa solução deve trazer benefícios ambientais, preservar, conseguir otimizar recursos naturais e energéticos. As três pernas do tripé não trabalham independentemente. Elas têm que trabalhar por igual.

 

Há exemplos de projetos bem sucedidos de design sustentável?

Isso é uma pegadinha. Até porque o conceito de design sustentável ainda é novo. Ele vem sendo progressivamente introduzido na indústria e na sociedade, cada vez com mais intensidade, então é possível citar casos onde existem diversas ferramentas, conceitos e estratégias de design sustentável, mas ali não está aplicado todo o seu potencial.

Na nossa sociedade, temos um produto muito comum – quase todas as pessoas possuem um – que requer muitos recursos naturais, mas que foi pensado de uma forma muito inteligente. O que é? O telefone celular. Internamente – na bateria, por exemplo – o aparelho celular contém materiais tóxicos, mas ele trabalha com uma série de questões com as quais o design sustentável trabalha. Por exemplo, o celular é cada vez mais multifuncional.  Hoje ele é, ao mesmo tempo, um rádio – imagine eu colocando um rádio aqui em cima da mesa –, uma televisão – imagine eu colocando uma televisão aqui –, uma calculadora – imagine eu colocando uma calculadora aqui –, um teclado – imagine eu colocando um teclado aqui, – um game, uma máquina fotográfica, enfim... Imagine eu colocando todos esses produtos aqui na mesa. Com o celular, todos esses produtos estão sendo desmaterializados e personalizados pequenininhos. Com isso, utilizam-se menos recursos. Isso é o multifuncionalismo via digitalização, via cabo de celular, via miniaturização, via virtualização. Então o celular agrega uma série de conceitos de design sustentável e uma série de ferramentas sustentáveis que podem ser utilizadas em qualquer outro produto.

Mais importante do que todas essas técnicas é a questão daquilo que chamamos de soft tools. Tudo isso a que eu me referi até agora são as hard tools. As soft tools são o seguinte: lembra que eu falei que os produtos têm que trazer benefícios econômicos, ambientais e sociais? Então, isso que acabei de expor foi, principalmente, um benefício ambiental. O beneficio social disto é que o celular, hoje, é trabalhado de uma forma que quebra um pouco o paradigma daquele sistema de produção e consumo. Hoje, uma pessoa adquire um celular e não necessariamente se apega àquele aparelho. Quem sabe daqui a um ou dois anos ela possa devolver esse celular à empresa e pegar um novinho, zero km, mais moderno do que aquele que ela está devolvendo. Na Europa, isso é muito comum. Portanto, houve uma mudança significativa no comportamento dessa pessoa em relação à produção e ao consumo. Antes, o que ela fazia? Comprava, usava e, quando não tinha mais função, jogava fora, o que gerava resíduos, gerava impacto ambiental. Hoje, a pessoa compra, usa e, quando aquilo não tem mais função, o que ela faz? Devolve para a empresa. Ao devolver para a empresa, ela passa a fazer parte do ciclo de vida daquele produto. Ela não joga fora, não descarta aquilo. Ela pensa: “Sabe de uma coisa? Vou me dispor a ir até aquela empresa, até aquela loja, devolver esse aparelho, porque vou ter um benefício”. Houve uma mudança comportamental e foram gerados menos resíduos, menos impacto ambiental. Por quê? Porque sabendo que existe essa estratégia de retorno, o designer, o projetista daquele produto, daquele celular, pensa: “Daqui a um ou dois anos, este celular vai voltar para a minha empresa, então tenho que pensar o que fazer com ele quando ele voltar”.

Assim, o projeto desse celular vai ter muito menos partes, vai ser pensado de uma forma que dure mais, porque ele quer que esse produto volte inteirinho para ele, vai ser pensado de uma forma que seja mais fácil de desmontar e de montar etc., com diversos elementos que gerem menos resíduos, menos recursos, otimizem energia. Há uma nova quebra de paradigma.

E qual é o beneficio econômico da empresa que está produzindo isso? Bom, primeiro na fase projetual. O projeto deverá ser melhorado, porque se sabe que aquele produto vai voltar. É, portanto, um projeto mais inteligente nos processos, nos materiais, na forma, na função. Sendo um projeto mais inteligente, deverá ser um projeto mais barato. Nisso ele já ganha. Segundo, ele tem um produto que vai atrelar muito mais o consumidor à sua marca.

Hoje em dia, em tempos de internet, o consumidor, com um clique, muda de uma empresa para outra. Num sistema onde o consumidor é envolvido no ciclo de vida do produto da empresa, esse consumidor se torna mais fiel àquela marca. A empresa pensa assim: “Vou entregar isto aqui para ele, que mais tarde vai devolver para mim e vai continuar comigo porque vou lhe dar um produto ainda melhor”. É uma situação onde só se tem a ganhar. Isso é um exemplo básico de design sustentável, que não é aplicado pensando-se em todas as ferramentas, em toda a sua potencialidade, mas é um modelo de negócio e um modelo de produto que pode ser aplicado em outras áreas.

 

Não há um lado perverso por trás dessa questão do celular que está no fato de você trocar a cada ano de modelo? O celular é o símbolo de uma cultura do efêmero e do descartável. Troca-se de celular mesmo que ele funcione perfeitamente bem. Ele pode estar com todas as suas funções e, mesmo assim, o consumidor resolve trocar por um novo, mais moderno, mais bonito etc.

Veja bem, sob o ponto de vista psicológico, isso pode ter algum impacto, mas ainda há uma mudança e ainda há benefício. Cada época da sociedade teve suas próprias necessidades em acordo com questões culturais, questões globais, questões locais. E cada sociedade dispunha de suas ferramentas para suprir aquelas necessidades, as dificuldades do momento em que se estava vivendo.

Hoje, talvez o celular seja considerado uma necessidade, ou talvez seja considerado uma ótima família para suprir algumas necessidades. Então, eventualmente, a pessoa vai querer comprar um celular independentemente do fato daquela necessidade lhe ter sido imposta ou do fato daquele desejo ter sido criado realmente por uma necessidade. Ela vai querer comprar. Se ela puder não comprar, mas devolver o dela e ganhar um novo, será melhor por dois motivos: primeiro, pelo menor impacto ambiental que estará causando, além de outros benefícios econômicos que afetarão a todos; mas, segundo, porque ainda assim haverá uma mudança de comportamento ligada à questão da desmaterialização. O que é isso? A pessoa deixa de venerar aquele produto e passa a venerar apenas o benefício do produto. Agora ela falará: “Gosto deste celular porque posso falar com uma pessoa lá da praia, posso acessar uma informação de onde eu estiver, posso calcular alguma coisa que eu precise no momento”. Ou seja, ela gosta do benefício do produto, não do parafusinho, da janelinha, do vidrinho, do plastiquinho brilhante.

O que isso quer dizer? Que ela se desapegou do produto e se apegou ao benefício. Em termos de sustentabilidade, isso é muito importante. Qual é o impacto que isto gera para as outras áreas? “Eu não tenho que ter dez carros, um atrás do outro”; “Não tenho que ter um relógio super legal”. O que isso quer dizer em termos de sustentabilidade é que a pessoa consome menos, de forma mais consciente, mais responsável e, portanto, produz menos impacto.

Esta é a principal mudança gerada por um sistema como esse, de retorno, chamado de sistema de produto de serviço, isto é, transformar um produto em serviço, o que eu chamo de conceito de benefício, ou o início da espiritualização do design. É quando a pessoa passa a entender o produto não mais como produto, mas como um serviço que lhe traz benefício. Ela consome o benefício, não consome o produto. Isso gera menos impacto ambiental e, portanto, as empresas podem ganhar mais.

Aí vem a grande mudança mercadológica do sistema de produção e consumo: as empresas podem ganhar mais produzindo menos.

Na nossa sociedade, o modelo de desenvolvimento econômico é falho no sentido da longevidade. Por quê? Porque ele é baseado numa idéia de que quanto mais você produz, mais você vende – e assim fica rico. Esse modelo que nos é vendido é falso. Por isso é que hoje vivemos essa crise, porque esse modelo de desenvolvimento econômico se diz infinito, diz que você pode crescer para sempre, mas sua estrutura básica, sua fonte de recursos, é uma fonte finita. O modelo de desenvolvimento econômico é baseado no sistema de produção e consumo. De onde vem a produção? De recursos naturais. Recursos naturais são finitos, não são infinitos. Portanto, em algum momento – como o momento que estamos vivemos agora – esse modelo de desenvolvimento econômico entra em colapso. Para dar um exemplo: podemos pegar uma quantidade de dominós e colocar um em cima do outro. A pilha pode acabar por dois motivos: ou porque os dominós acabam, ou porque, em algum momento, você não vai mais conseguir equilibrar e eles vão cair. Nosso modelo do desenvolvimento econômico é exatamente assim.

Se há uma mudança na essência do sistema de produção e consumo, transforma-se esse modelo de desenvolvimento econômico que, hoje, não é sustentável. E, quando isso acontece, a idéia de ganhar dinheiro se transforma: não é produzindo mais, não é pressionando mais. Você até pode vender mais, mas isso não quer dizer que precise produzir mais. Esta é a idéia do sistema de produto de serviço ou do conceito de beneficio.

 

Quais países são referência em design sustentável?

O mapa mundial, digamos assim, do design sustentável se resume principalmente à Europa. Não quer dizer que outros países não façam coisas interessantes, ações interessantes, mas a vanguarda do conhecimento e do pensamento em design sustentável, as discussões, os grandes congressos, as pessoas que já vêm falando há mais tempo sobre estas questões, estão na Europa, principalmente na Inglaterra e na Holanda. Saindo um pouco da Europa, há também a Austrália. Existem outros ótimos centros também em outros países, pólos de estudo, de educação e de pesquisa em design sustentável, como na França. Na Holanda, em Eindhoven, há um centro chamado Design Academy, que também é muito bom. Ainda é um mundo pequeno, um grupo pequeno.

Aqui no Brasil, temos o idds e o Centro de Design e Sustentabilidade, na Universidade do Paraná. Até onde eu sei, são essas duas organizações que têm contato direto e corriqueiro com os consultores e pesquisadores da área, no exterior.

 

Qual é a importância dos selos de sustentabilidade? O que existe hoje de relevante no Brasil e no mundo nesse sentido?

Creio que seja uma importância parecida com a de qualquer outro selo ou certificação: de certa forma, padroniza uma qualidade e atribui reconhecimento e confiabilidade para determinados produtos, serviços, atendimentos, comportamentos ou processos.

No mundo, existem alguns selos de certificação, alguns selos de qualidade, que, a meu ver, precisam ser mais holísticos. Não se pode afirmar hoje que um produto é sustentável, porque os parâmetros são muitos diferentes e muito limitados. Realmente, fica a questão de análise do ciclo de vida, a questão de técnicas de engenharia processual – que também não podem tudo, mesmo dentro da área técnica. O que estou querendo dizer com isto é que os selos de certificação de hoje precisam ser incorporados, pensados ou estudados, junto com o comportamento humano, com outras necessidades humanas.

O FIB, Felicidade Interna Bruta, por exemplo, faz isso muito bem. Ele é um outro modelo de medição, que faz referência ao PIB. O PIB é o Produto Interno Bruto, um modelo de medição de desenvolvimento econômico baseado em quanto você teve de capital bruto no final de algum ciclo. Mas isso quer dizer também que se houve mais pessoas doentes na sua cidade e elas foram comprar mais remédios, o seu PIB aumentou. Você teve desenvolvimento? Quer dizer que ter mais pessoas doentes é desenvolvimento? A mesma coisa acontece com os selos de certificação hoje. O FIB faz essa medição de forma muito mais holística.

Os selos de certificação de qualidade ambiental também precisam ser mais holísticos. Os que temos hoje são bastante limitados. E, no Brasil, praticamente eles não existem. Há o Forest Stewardship Council (FSC), que é mais relacionado à madeira e mostra uma proveniência responsável do material, o não uso do trabalho escravo, do trabalho infantil, mas ainda é pouco. O idds se propôs a criar, a partir do próximo semestre, um selo de certificação para diversas áreas da indústria, serviços, sites, comunicação, diversas áreas de atuação do design, onde vamos dar uma vazão um pouco maior a isso, ou seja, criar uma forma de reconhecimento um pouco mais holística.

 

De que modo a virtualidade, isto é, o mundo virtual da internet, pode contribuir no sentido da criação de um planeta mais sustentável? Isso está ocorrendo?

Sabemos que a desmaterialização é uma das estratégias mais eficazes de design sustentável para um planeta mais sustentável. Isso ocorre por que suas soluções podem interferir profundamente no sistema de produção e consumo, uma das bases do modelo de desenvolvimento econômico. Como resultado, as mudanças atingem a forma de utilizar a matéria-prima, manufaturar, consumir, descartar e gerar lucro. Virtualização e digitalização são algumas das ferramentas da desmaterialização. Isto, acompanhado da internet e de outras tecnologias e estratégias como holografia, “WiFi”, 3G, multifuncionalismo e miniaturalização – ainda mais com a ajuda da nanotecnologia –, gera novas possibilidades de soluções.

Hoje, o que vemos são produtos físicos/materiais serem virtualizados/digitalizados, agregando uma série de funções e características – antes apenas utilizadas independentemente – como, por exemplo, os aparelhos celulares. Também através dos fóruns de discussão na internet e ferramentas online é possível obter mais informações sobre o produto.

No futuro, o que teremos serão produtos cada vez mais digitalizados, tornando-se aplicativos nas “nuvens”, onde, tendo acesso à internet e às redes com tecnologias wireless, as pessoas poderão baixar a qualquer hora e em qualquer lugar os produtos de que necessitem, utilizando apenas algum dispositivo físico/portátil para receber esses dados e reproduzi-los virtualmente, podendo usufrui–los na forma pay as you go. O resultado disto, é que haverá uma mudança comportamental nos consumidores. Como eu já disse, os usuários não vão se apegar tanto ao material/produto, mas sim ao benefício que ele traz.

Outras conseqüências são a menor quantidade de extração de matéria–prima para produção e, conseqüentemente, menos descarte de resíduos. As empresas poderão aplicar uma série de estratégias para tornar seu cliente mais fiel à marca e, principalmente, não haverá mais desperdícios ao longo do ciclo de vida dos produtos, já que serão utilizados apenas no momento necessário, podendo ser compartilhados, ranqueados e debatidos em tempo real por usuários de países diferentes. Sendo compartilhados e utilizados apenas nos momentos necessários, até mesmo os melhores produtos – que teoricamente seriam mais caros – poderão ser mais acessíveis. Essa é a verdadeira democratização do design. Haverá também uma busca pela melhor qualidade dos produtos oferecidos, pois o poder de escolha e veto estará mais nas mãos dos consumidores.

Apenas essas possibilidades já fazem da virtualização/digitalização uma das importantes ferramentas de um futuro menos impactante do ponto de vista ambiental, com novas possibilidades mercadológicas e de inovação, e de uma sociedade mais interativa, coletiva, cooperativa e democrática, tão importante para uma ambiente mais sustentável.

 

Qual o papel da produção artesanal na obtenção de um objeto sustentável, ou mesmo de um objeto proveniente do design sustentável? E quais as suas limitações?

Na sociedade da velocidade, ciência, mecânica, reprodução, replicação e necessidade de atingir a perfeição, a principal contribuição do artesanato para a sustentabilidade é mostrar que ainda somos humanos. O artesanato faz transparecer de forma explícita, através dos produtos criados, nossas melhores qualidades e defeitos, mas sempre com um “melhor” impacto na economia, sociedade e ambiente, pois a produção é feita em grupos e/ou cooperativas, de forma lenta, restrita, cuidadosa, atenciosa aos detalhes e, muitas vezes, sob medida. Isso promove uma cultura econômica mais sustentável, menos gananciosa, um maior equilíbrio entre extração de recursos, produção e consumo, além de criar um senso comunitário mais sólido. Essas características batem de frente com uma série de paradigmas da economia moderna e nosso – ocidental – atual modelo de desenvolvimento. Muitos dos expoentes em design sustentável observam o artesanato e o aperfeiçoam na forma de slow design.

 

Há um teórico, cujo nome não me recordo, que dizia que o grande passo para se chegar a um mundo sustentável seria ampliar as esferas públicas, os lugares de compartilhamento, e aproveitá-los melhor, ao invés de se fechar na individualidade. Ou seja, em vez de cada um comprar os seus próprios livros e ter uma biblioteca dentro de casa, pode-se pensar em uma grande biblioteca pública, onde todo mundo possa compartilhar os livros. Como você vê essa idéia?

Fantástico. Tem um arquiteto americano radicado no México, se não me engano, e, entre seus projetos, há uma casa que mais parece um casulo. O que é esse casulo? Uma cama, um espaço para se guardar umas quinquilharias, pequenininho, e mais nada. Qual é o seu conceito? Farei aqui uma releitura do ponto de vista do design sustentável.

Ele está querendo dizer o seguinte: tudo do bom e do melhor, você tem aí fora. Por mais que se traga tudo do bom e do melhor para dentro de casa, não vai ser igual a lá fora. Ou seja, se eu quiser um cinema na minha casa, posso colocar o melhor home cinema, mas ele não será igual ao Cinemark ou a qualquer outro cinema comum. Se eu quiser um jardim no quintal da minha casa, posso fazer um jardim muito bonito, muito gostoso, mas não será igual ao Parque do Ibirapuera. Se eu quiser um espaço gourmet ou um ambiente para fazer pizza na sacada do meu apartamento, será ótimo, mas não melhor do que uma pizzaria ou um restaurante.

O que isto significa? Que toda a sua vida pode ser melhorada se você puder se destacar da questão do pertencente. Não é preciso ser proprietário de algo, mas pode-se utilizar e se beneficiar de determinadas coisas e espaços, também dentro daquele conceito de benefícios. Você não usará o tempo todo, mas no momento em que quiser aquilo você usa, no momento em que precisar daquilo, você usa. Assim, é preciso se despregar um pouco da questão de posse e saber que é possível compartilhar. Hoje, compra-se um carro, mas ele passa 70% de sua vida útil parado. O que é isto? Um completo desperdício de uso. Agora, imagine se você tivesse um carro que fosse compartilhado, sei lá, por dez pessoas, e cada uma o usasse no momento em que precisasse. Haveria diminuição dos recursos naturais utilizados na sua produção, diminuição de desperdício de energia, um compartilhamento e um senso de responsabilidade coletiva, pois se estou usando aquele carro, tenho que ter responsabilidade para com ele, porque sei que ele não é só meu.

Ponha isso no âmbito da cidade. Imagine se muitas das coisas que usamos individualmente fossem compartilhadas. Se percebêssemos isso, se esse projeto funcionasse, meu jardim seria então o Parque do Ibirapuera. E disso poderia até decorrer um programa público. O poder público, a subprefeitura, posiciona-se da seguinte maneira: “Seu jardim é o Ibirapuera, cada cidadão vem aqui e cuida um pouquinho da árvore, vem aqui e pode plantar alguma coisa etc.”. Cria-se um senso de responsabilidade coletiva, um senso de maior cidadania, um senso de maior responsabilidade para com o ambiente em que se vive. Cada um começa a cuidar do seu cantinho, da sua calçada, do seu ambiente de trabalho. É uma questão que passa a transcender o local em que se vive. Afeta tudo.

 

No mundo de hoje, em que a população ultrapassa seis bilhões de pessoas, como conciliar melhorias sociais, que necessariamente vão levar ao consumo de mais recursos naturais, com responsabilidade ambiental?

Uma das coisas de que fala-se muito em design sustentável é que ele tende a inverter a polaridade do impacto. Então, algo que hoje tem um impacto muito negativo pode efetivamente impactar na mesma proporção, mas de maneira positiva. O design sustentável tem capacidade para isso. O próprio design, hoje, é subutilizado, mal utilizado e, portanto, a tendência dele é gerar impacto, muito impacto. Para se ter uma idéia, 80% do lixo gerado no final do produto poderia ser evitado na fase projetual, na fase de design. Em São Paulo, 70% do volume dos lixões vêm de embalagens. Isso poderia ser resolvido via design. Sem contar muitos outros impactos, muitos relacionados a lixo, a saúde pública mesmo. O design sustentável tem a capacidade de inverter a polaridade do impacto. Antigamente se dizia que sustentabilidade era limitação, uma ameaça à liberdade dos americanos, uma ameaça ao sonho americano. O design sustentável sempre olhou a sustentabilidade com outros olhos, como uma grande oportunidade de negócio, não como algo arriscado, mas algo que poderia gerar oportunidades, que poderia gerar novas formas de desenvolvimento.

Uma das grandes dificuldades para a sustentabilidade é, sem dúvida, a questão do aumento de população, o problema da super-população. Entretanto, podemos pensar o seguinte: tudo bem, existe uma super-população que precisa ser controlada, talvez com políticas públicas, com educação, mas, atualmente, o que se pode fazer a respeito com o design sustentável? De repente, cada cidadão é um agente de comunicação, um agente de consciência, um agente de mudança. Nesse sentido, quanto mais, melhor. Quando você come, o que está fazendo? A comida é um combustível para ser usado como energia, necessária para se chegar até aqui. Assim, todo ser humano é uma mini-usina de energia, digamos assim, para uso próprio. Podemos pensar: “Já que tenho uma super-população, vou usar cada pessoa como uma usina de energia”. É possível fazer isso e já está ocorrendo em algumas universidades. Existem alguns projetos conceituais, como uma calçada em que as pessoas vão andando e gerando energia. Aquele tênis de criança, em que quando ela pisa acende a luzinha, vem desse conceito. Todos os produtos que hoje são à base de energia elétrica ou de outras fontes podem ser feitos com energia dinâmica.

Outro exemplo do uso de energia humana é aquele relógio em que você vai andando, vai balançando, e vai gerando a própria energia. Dentro desse conceito, existem já academias, danceterias. Fui numa academia muito legal, do Projeto Academia. A pessoa está lá na esteira ou fazendo qualquer outro exercício, como supino, bicicleta, o que for e, à medida que vai se exercitando, aparece no mostruário digital o valor de quanto ela está gerando de energia com aquele exercício, o quanto aquela energia que ela está gerando vai sendo abatido da conta de energia da academia que, portanto, está lhe dando um desconto na mensalidade. Isso a motiva mais ainda a fazer ou a continuar indo para a academia. É um negócio super legal.

Toda vez que o design sustentável olha para uma atividade ou um problema, ele tende a pegar esse problema e inverter a polaridade. Por mais que o impacto inicial seja massivamente negativo, o design sustentável tem a capacidade de inverter a polaridade disso e causar um impacto massivamente positivo.

 

Que atitudes o consumidor comum que deseja contribuir com a sustentabilidade pode tomar?

Vou falar novamente do ponto de vista do design sustentável, porque, senão, corremos o risco de cair naquela coisa de: “fechar a torneira”, “diminuir o tempo no banho” etc. Vou falar de algo que se perdeu bastante na sociedade moderna. A sociedade moderna vive muito baseada em regras, legislações e leis escritas para controlar e regrar coisas sensatas da consciência. Há, por exemplo, uma lei que diz que o médico, o psicólogo e o psiquiatra não podem ficar contando sobre um paciente em público, porque seria antiético. Está na lei. Ele pode ser processado se infringir isso. Outro exemplo: tem uma plaquinha no metrô dizendo que tem que deixar a cadeira vaga para o idoso, para a gestante etc. Os Estados Unidos são o país que mais tem leis, que mais tem legislação. Tenho um amigo que voltou de lá e comentou: “Nossa, que lugar legal, você vê tudo certinho, tudo controladinho, se o cachorro fizer cocô na rua é preciso limpar porque senão é multado”. Do ponto de vista filosófico isso significa uma coisa: quanto mais regras, quanto mais legislação, quanto mais contratos, quanto mais leis, maior a decadência de consciência da sociedade.

Uma das coisas que se perdeu com a modernidade foi nossa capacidade de questionar e ser criativo. Isso ocorreu, principalmente, após a revolução industrial, que implantou todo um sistema de produção de replicação em massa, onde todas as coisas são certinhas, os padrões que se criam – de cadeira, por exemplo – são todos certinhos. Isso influi diretamente na nossa consciência: já não conseguimos ser tão criativos ou questionar as coisas.

Diante de todo esse quadro, uma das grandes coisas que se perdeu foi o chamado design intuitivo. O que é isso? É você gerar soluções a partir de recursos e coisas que se tem, em detrimento dessa facilidade, hoje em dia, de sair para comprar algo novo. “Ah, eu preciso consertar a torneira”. Ao invés de consertar a torneira, vou à loja, compro uma, troco e ponho a nova. E se, de alguma forma, ela fosse consertada com alguma coisa que eu tivesse ali, como antigamente se fazia, quando se amarrava um pano e, às vezes, dava certo? E quando colocávamos um Bombril na antena da televisão para pegar um pouco melhor? E, muito tempo antes, quando as pessoas lavavam os pratos sem detergente? Lavavam com terra, com pedra, com a própria saliva, e ficava extremamente limpo.

O que se perdeu muito foi o design intuitivo. É uma mudança comportamental que tem a ver com a própria revolução industrial e com o consumismo. Como gerar menos impacto ao escovar os dentes, por exemplo? Todas as soluções podem ser criadas de uma forma muito intuitiva. Hoje, por exemplo, se seu sapato fica velho, tem um furo ou está um pouco rasgado no canto, você joga fora e compra outro. Aquilo não é resolvido de forma intuitiva. E isso, na verdade, foi perdido porque nossa consciência de existência extrema passou. Hoje, vivemos de uma forma muito mais confortável. No entanto, é um conforto um pouco falso, porque todo esse conforto pode, de uma vez só, sofrer uma grande quebra. Grandes problemas ambientais, grandes problemas sociais, são os colapsos. Então é algo um pouco falso. Só que quando nos encontramos num momento extremo, somos obrigados a mudar. Por exemplo: está faltando água? Então vamos usar menos. Está faltando água e eu sei que preciso dela por muito tempo? Então vou usar um pouquinho menos. Estou no meio do nada, está faltando água e, pela tampa dessa garrafa, está saindo muita água? Vou fazer alguma coisa para sair um pouco menos, nem que seja pôr a boca, fazer um pontinho e tomar só um pouquinho. Num momento extremo, em que não se tem nenhum recurso, mas o sapato está furado, como resolver isso? É o chamado design intuitivo. E fazendo o design intuitivo você automaticamente faz o design sustentável, gera menos impacto, promove a sustentabilidade.

Toda vez que vejo um design intuitivo desse tipo, é o que me chama mais a atenção, é do que eu gosto mais. São as coisas mais inteligentes, mais criativas, mostra muito mais como a pessoa não está atrelada a uma forma de visão, a um formato, a um sistema de desenvolvimento, de vida. Ela consegue sair da caixa.

Uma moça que trabalha em uma organização de transportes sempre fala isso: “A gente acorda na caixa, que seria o nosso quarto, a gente sai da caixa-quarto e vai para a caixa-cozinha, da caixa-cozinha vai para a caixa-carro, da caixa-carro para a caixa-escritório, da caixa-escritório para a caixa-academia, da caixa-academia a gente volta para a caixa-quarto, para a caixa-casa.” Isso, inconscientemente, gera um roubo imensurável de consciência e de criatividade do ser humano. Não conseguimos ser mais criativos, principalmente para buscar outros caminhos e outras formas de se viver.